domingo, 3 de junho de 2018

Bem-vindo ao clube




Há coisas que não podem ser devolvidas: um beijo, um abraço, a palavra que sai da boca.

Não se pode devolver um sorriso, um olhar ou um carinho.

Podemos até retribuí-los,
mas nunca devolvê-los.

O amor, também, não se devolve.

Não posso devolver o amor que me dão, da mesma forma que nunca recebi de volta o amor que já dei. Quando os relacionamentos terminam, o amor que um deu ao outro não é devolvido para que possa ser dado à outra pessoa. Ele simplesmente vai-se com quem foi embora, e o amor que recebemos permanece nosso. Por isso, creio eu e perdoem-me os muito mais entendidos no assunto, ficamos com aquela sensação estranha de vazio.

É o espaço deixado pelo nosso amor.

Se este pudesse ser devolvido, que bom seria!

Eu, por exemplo, pegaria todo o amor que dei a esse homem – que neste momento não sei se é ingrato, desalmado, leviano ou louco – e guardaria muito bem guardado, talvez num lugar onde nem eu mesma pudesse achá-lo. É lógico que, até mesmo por uma questão de cortesia, devolveria o que ele me deu, que foi, tenho a sensação, um grão de areia perto da montanha que foi o meu. 

Infelizmente, porém, o amor não se devolve. É angustiante saber que o amor que entreguei aquele homem não poderá ser dado a nenhum outro, pelo menos não da mesma forma que ele é. Ou foi, já nem sei muito bem.

É. Essa dor perene e toda essa saudade só mostram que meu amor por ele ainda existe, ainda é. 

Talvez nunca deixe de ser. Justamente por não poder ser devolvido é que nunca damos o mesmo amor. Sempre amamos mais uns que outros e nunca agimos exatamente da mesma maneira com aquelas ou aqueles que amamos.

Tenho medo de uma coisa apenas: já que a cada despedida vai-se um amor que não volta, ficarei eu vazia de amor? 
Chegará o dia em que eu não tenha nem um pouquinho de amor para oferecer? 
Será o coração fonte inesgotável de amor, ou somente um poço que seca?
Bem, não sei. 
Só sei que se ele devolvesse meu amor, eu teria reserva para o resto da vida.

sábado, 22 de agosto de 2015

Deposição


"Ela está descalça caminhando...
Que noite serena...
Nublado, ruas vazias.

Ela quase consegue ouvi-lo dizer que assim vai acabar cortando o pé


Se doer, diz o terapeuta, eu quero que você grite.
O mundo é dor. De amor, do parto e da partida.
Freud explica, é dor de amor ferido pela carência de gozo e dor. (Paradoxal, eu sei.)
Dor de poetisa, que sem aquele beijo geme sozinha.

Não há flores.
E a dor te acorda.
Eu só queria te dar a mão agora.
Serenou e te vejo ir embora tão devagar que nem tenho certeza se é real. 

Náuseas.

Superei meus limites. 

Você se recusa... eu sei que é instintivo.
Mas um dia perceba que não há como tirar da pele a possibilidade de ser ferida sem tirar-lhe a possibilidade de ser tocada, de ser marcada. 
Sob pena de viver às voltas com o desejo de intensidade, e ao mesmo tempo, ameaçada de sentir além do que pode suportar.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Impulsos



Dia desse qualquer eu implodo
Brigo comigo mesma, nego, tento controlar. Perco a batalha.
Tão patético que mal consigo me encarar no espelho.
Sensações descongeladas. Elas já estavam mesmo aqui?
Parece que consumi todo o oxigênio desse quarto.
É... qualquer dia desses eu implodo.
Grito, sofro e nego. Morro negando.
Grito, desespero, me recuso.
Então eu, vagarosamente, me mato.
Me caço.
Me encontro.
Me penetro.
Depois vou dormir em paz.