quarta-feira, 1 de maio de 2013

Tenho valor. Aceito cartão.




O Colega comenta: "Ela é muito legal, tem um corpo muito bonito, mas tem umas estrias...aí já perco a vontade"

Vejo nisso a demonstração da busca desvairada pela "perfeição",  e  idealização do outro, arbitrária e vazia.

Não sei se o que sinto é pena ou medo.
Pena por motivos óbvios e medo, tanto pelo presente como pelo futuro.
Parece-me que enfim o capitalismo nos engoliu.

O outro se tornou um produto de loja, e qualquer risco nessa embalagem desvaloriza o seu "preço".  Há muito quando se fala em relacionamento, fala-se em valor, fala-se diretamente em valor financeiro.
Não é vergonha dizer que eu mereço alguém que proporcione luxo, no mínimo esse alguém me deve uma viagem a Paris.

Pois é. E quanto vale o “ser”? Quanto vale o “sou”?
Sinto medo, porque sendo o outro mercadoria, eu posso devolver, posso trocar a qualquer momento.
“Não se apegue a bens materiais” - Dizem.
Compre, compre, venda, troque, negocie!
Quebrou? não conserte, compre um novo! É mais fácil, melhor e mais moderno também.

E o problema é que essas negociações deixam um fantasma a nos assombrar (e sequer temos consciência), mas o que fica é a tristeza, a solidão, o pesar de não conseguir chegar a felicidade nem por um dia. 
Afinal sempre há algo novo e mais chamativo na vitrine.

O que eu tenho fico velho, perdeu a graça. 
Como crianças que usam e quebram seus brinquedos, caminhamos como tanques de guerra destruindo relações, coisificando tudo. E claro, sem tomar partido, sem ter responsabilidade, porque sim:  somos bebês mimados e qualquer luz mais forte chamará nossa atenção, nos fará sorrir, mas tão rápido quanto veio,  irá embora.

E salve-se quem puder.


Imagem de Bruno Marafigo.

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