quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Monólogo (t) (n)


É natural sofrer inquietação por manter vivos objetivos transformadores.
Mas e quanto à inquietação do que esperam de mim?


Esperam que eu mude. Que eu me adapte.
Tenho uma notícia boa e uma ruim. A má notícia é que eu escolho a hora de mudar e nada do que me disserem vai influenciar nessa decisão,a boa notícia é que para lhes agradar eu vou fingir que mudei. Eu sempre danço conforme a música.
Bom,desculpe. Eu menti. São duas notícias ruins,porque no fim a boa,fica ruim,afinal,eu canso de interpretar.


Declarei-me sem mérito para receber ajudar divina,diante de tantas falhas,desvios de caminho,má conduta,e a hipocrisia de tentar alcançar a perfeição.


Estou esgotada.
Já faz alguns anos que venho me cansando das pessoas,e me sinto cada vez mais distante,diferente delas,nem melhor,nem pior,apenas inadequada, incompatível. Não quero que me toquem,o mundo fez de mim uma egoísta quase autosuficiente. Eu até gosto da atenção que eles me oferecem,não fosse meu defeito ficar entediada tão rápido,não fosse minha falta de piedade e o fato de fingir amar a todos,suas conversas banais,seus gostos monótonos,sua passividade diante dos problemas,o meu desajuste refletido em seus olhos.


É maçante ser atriz metade do meu tempo.
(Risadas)


Cheguei a uma conclusão: o que eu odeio mesmo é o fato de não poder mudá-los,é a minha impotência diante da violência,do desrespeito,do fato de que nem todo mundo precisa respirar. Ao mesmo tempo em que vejo isso como frustrante,vejo também como um balsámo.Tento não ser tão dura comigo,afinal é compreensível àqueles que fazem um pacto educativo de si próprios. Sem lástima e sem censura, tento me perdoar e seguir essa estrada.


Paciência.


Não planejo ser perfeita, mas anseio sim estar nesse caminho escuro que, tenho consciência, nunca verei o final. O tempo concederá valor aos meus esforços, de recompensa quero apenas a minha liberdade,que me deixem em paz.


O que vocês acham que vão conseguir me pressionando tanto? Até me preocupa... porque tantas vezes eu fui uma bomba-relógio. Diante desse fato todos se fazem de idiotas,dizem pra si mesmo que não sou tão venenosa,que sou forte,que posso agüentar.
Nossas ligações estão cada vez mais fracas,instáveis. E sabe o que eu acho disso? No fundo não me afeta,vocês vão me ver lamentar,mas faço isso porque é o que a sociedade espera de mim,divirtam-se é para o deleite de vocês.


Ouvi alguém na platéia me chamar de egocêntrica. Eu sou.
Egoísta. Muito,mas não se preocupem.
Existe algo sobre o que não há duvidas,sou perigosa até pra mim e freqüentemente tenho ataques de acismo.


A verdade é que eu não vou deixar nunca de ser uma atriz coadjuvante,primeiro porque escolhi esse papel,segundo porque se eu decidisse ser sincera vocês não gostariam de mim.............
e a platéia,convenhamos,faz parte do meu show.

Um comentário:

  1. Não sei definir em escrito meu reflexo de seu texto. É o tipo de entendimento que se passa em outra linguagem. Ter uma impressão que não se pode definir me mostra que ela não existia em mim. É novo. É bom.

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Carpe Diem,Tempus fugit.