terça-feira, 15 de julho de 2008

Desambiguação


Ele abriu os olhos, demorou a reconhecer o ambiente.
Sentou-se no sofá tentando assimilar a noite passada, passou as mãos no rosto, parou um instante fitando um porta-retrato dela em cima da mesinha.
Não tinha certeza do que estava sentindo.
Os beijos dela eram cheios de paz, de ternura, de amor.
Sentia-se um cafajeste.
Lembrou-se do problema que o levara até ali na noite anterior, naquele momento estava triste por algumas decisões erradas que havia tomado no decorrer da vida e pelos atos impensados daquela noite.
Tudo que sabia era o que havia sentido.
Tudo que ele viu naquela noite foi uma menina sexy, não conseguiu enxergar a amiga.
E agora nada mais importava, só cheiro doce que vinha da pele dela.
Isso no passado, na madrugada.
Levantou-se e segurou o porta retrato.
Era manhã de domingo, presente.
Ele achava que não estava sendo o melhor que poderia ser, que fracassara em todos os aspectos da vida, que deveria decidir o que realmente queria, assumindo as conseqüências. Sem medo de errar.
Porem lutava com sua consciência: não via futuro naquilo. Ele conhecia bem a personalidade dela. Ele queria alguém que voasse mais baixo.
Se punia por pensar assim. Ele tinha medo de arriscar, não se sentia seguro.
Sentiu raiva dela.
Voltou a senta-se no sofá, sua angustia aumentava enquanto revia tudo que havia acontecido. Pensava: “Como posso desfazer tudo isso? Como posso deixar de sentir?”.


Levantou-se e estava certo da decisão que iria tomar: “Vamos ser amigos... a gente esquece... todo mundo esquece. Assim que ela acordar vou agir naturalmente...
Eu não sei como vou agir”.
De repente ele sentiu uma vertigem, não sabia como iria olhar pra ela, em que tom devia falar, se devia tocar no assunto, se devia falar no que ainda sentia pela namorada.
Resolveu relaxar: “Ela é diferente das outras, aposto que nada disso vai abalar nossa amizade”.
Sentou-se no sofá.

Ela abriu a porta do quarto lentamente.
Ele não estava mais lá.
Respirou aliviada porque teria mais tempo pra pensar no que dizer, pra ensaiar expressões de indiferença.

Deixou seu corpo escorregar até o chão.
Precisava encontrá-lo. Explicar-se.
Chorou.
Estremecia apenas ao lembrar daquela noite...Sua respiração ofegante, o jeito como ele puxou seu cabelo e beijou sua boca.
Seu olhar provocante...
O beijo...o gosto de licor de menta.
1,2,3 orgasmos.


Paixão?
Não ousaria repetir isso nem diante do espelho.

Mais uma semana acabou.

Ontem choveu.
Outra semana.
Ela não sabia o que pensar, só sabia que ele havia voltado com a namorada. Não esperava outra noite de amor, apenas uma explicação, qualquer palavra que provasse que ele tinha alguma consideração por ela e pelo que tinha acontecido. Qualquer beijo de despedida.
...


Ela levantou cedo. Sentia-se muito mal.
Naquele dia ela recebeu um abraço, vindo de braços que não eram os que ela realmente desejava, mas que mesmo assim a salvou.
Os dias que se seguiram foram estranhos, procurando em outra boca os beijos dele, ora se punindo por ter-se deixado envolver, ora achando que ele era um covarde.

E como essa é uma historia de encontros, desencontros, interesses e decepções tem fim, ela acaba em um envelope com um anel de prata e uma carta, que não é nem de amor, nem de ódio, apenas um desabafo:

Estou devolvendo o seu anel, minhas mãos não suportam mais o peso dele,
Devolvendo suas belas palavras.
Devolvendo seus beijos, seu cheiro que estava impregnado na minha roupa.
Devolvendo suas risadas que ficaram ecoando na minha casa
Devolvendo as músicas que me lembram você
E todas as coisas que me levaram a acreditar que um dia você poderia ficar comigo.

Por favor, se der poderia devolver meu coração?


A insensatez já não mora aqui. Mudou-se.

2 comentários:

Carpe Diem,Tempus fugit.